Hoje vamos falar de uma cultura de jogo que é a marca do futebol italiano, passou por diversas transformações ao longo do tempo, porém ainda está na raiz de quase todas as equipes italianas. Você vai saber como surgiu o Catenaccio, como é o seu funcionamento e sua evolução ao longo do tempo.

Antes de mais nada vamos definir o que é Catenaccio. Nada mais é do que uma cultura tática, assim como o jogo de posição, mas obviamente com funcionamento e mentalidade totalmente diferentes. Seu surgimento foi na Suíça, na década de 30 e depois foi implantada, consolidada e bem-sucedida na Itália. Baseia-se, basicamente, no discurso de a defesa ser o melhor ataque.

Mas por que defender-se em primeiro lugar? Bem, a Itália é um país que se unificou em 1860, antes disso os territórios eram independentes e sofriam muitas invasões, basta relembrar um pouco da história de Roma, que todos já vimos alguma vez na escola, para relembrarmos o tanto de invasões que este império sofreu. Depois da consolidação do império romano até a primeira guerra mundial, a região mais teve que se defender dos ataques do que sair para a luta. Segundo o jornalista Enric González, isso criou em todo o país uma mentalidade de “trincheira”, ou seja, de resguardo e atenção plena para possíveis ataques. O futebol nada mais é o reflexo da sociedade, então isso explica um pouco a filosofia de jogo do país.

Durante o facismo a Itália teve como técnico de sua seleção Vitório Pozzo, um técnico disciplinador, o primeiro a instituir a pré-temporada e a trabalhar de maneira mais profunda a preparação física dos jogadores. Ele era identificado com o regime, o governo então viu no esporte um meio para fazer propaganda. A Itália ganhou duas Copas com Pozzo 1934 e 1938, com um futebol de muita força física e marcação individual ao defender-se e velocidade nos contra-ataques, o sistema era o WW. Surge então os primeiros traços desta cultura de futebol na terra da bota.

 

2-3-2-3, o sistema tático da Itália campeã do mundo em 1938.

Na mesma Copa de 1938 vencida pela Itália surgiu o primeiro líbero, após Karl Rappan, então treinador da seleção da Suíça recuar um meio-campista. Este jogador era responsável por ficar atrás dos dois zagueiros e cobrir possíveis falhas próximas ao gol defendido, além de ajudar o volante (também chamado de regista) na saída de bola da equipe.
 

 

A Suíça de Rappan foi o primeiro time a jogar com o líbero.

É com essa ideia de líbero, marcação no homem não no espaço, transições rápidas ao recuperar a bola, e elevada atenção na preparação física dos jogadores, sempre buscando torna-los atléticos ou/e rápidos, que surge o nome de Catenaccio. O responsável pela consolidação desta cultura futebolística na Itália é Helenio Herrera, técnico da Internazionale entre 1960 e 1968, no período foi campeão italiano três vezes, além de também ter ganhado duas Champions League e duas Copas Intercontinentais (antigo mundial de clubes). É importante ressaltar que algumas outras equipes tiveram sucesso com o uso em conjunto das mesmas ferramentas citadas que formam o Catenaccio antes da chegada de Herrera nos nerzazuri, porém não a nível internacional, como foi o caso do técnico franco-argentino, por isso ele é considerado o responsável pela disseminação do Catenaccio. 

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A mentalidade militar e atlética do Catenaccio foi pregada por Herrera no vestiário da equipe da Inter na época. (Classe + preparação atética + inteligência= Scudetto)

 

A Internazionale de Herrera consagrou a cultura do Catenaccio na Europa. O sistema tático era o mesmo da Suíça de Rappan.

A Inter de Milão treinada por Herrera foi o símbolo do Catenaccio. 6 jogadores na última linha, marcações individuais com um líbero na sobra

Após o sucesso da equipe de Milão os outros times tentaram copiar o modelo de Herrera, porém sem sucesso, pois os treinadores armavam esses times apenas para se defender, sem pensarem no contra-ataque, pois, a Inter tinha um armador que chegou a ganhar a bola de ouro, Luís Suarez, que colocava os atacantes na cara do gol além de ser oportunista nas finalizações, a equipe também contava coma infiltrações dos homens de meio e ocupava bem os lados para que houvesse cruzamentos na área. Não era simplesmente se defender. Outro fator que prejudicou muito a continuação do Catenaccio puro na Itália foi o fato de os outros times europeus se adaptarem a este estilo, que ficou já havia ficado óbvio e monótono, então era fácil neutraliza-lo.

Foi então que o técnico sueco Nils Liedholm trouxe para a Itália a marcação por zona e influenciou todo o país, o futebol passava por mudanças, era preciso ter, pelo menos minimamente, algum controle espacial. Treinadores como Giovanni Trappatoni passaram a não usar mais a marcação individual pura, mas sim os encaixes, ou seja, cada jogador teria que perseguir um rival dentro do seu setor, se este rival sair do setor há a troca na marcação, as ideias de defender-se em primeiro lugar, o líbero, o contra-ataque como arma ofensiva e o cuidado com o físico do elenco foram mantidas. Trappatoni ainda é o treinador italiano recordista de títulos, com destaque maior na Juventus e na Internazionale.

A Juventus de Trappatoni ainda usava um líbero atrás da linha de 4, porém as perseguições já não eram tão longas, tanto que o sistema tático, 5-3-2 fica mais nítido na imagem

Com a regra do impedimento o líbero foi perdendo espaço no futebol mundial, não teria motivos para manter um jogador atrás da linha de defesa sendo que se o atacante estiver, no momento do lançamento, na mesma linha do penúltimo defensor, não estará mais em impedimento. Por influência de Arrigo Sacchi as equipes passaram a jogar prioritariamente no 4-4-2, visando o controle espacial e a marcação totalmente por zona, mas com a mesma mentalidade na postura e na preparação. Fábio Capello é um grande exemplo deste novo momento do Catenaccio, seu Milan campeão Europeu na temporada 91-92 marcava por zona, com conceitos bem atuais, como o manejo da última linha para deixar o rival em impedimento, pressão no portador da bola, coberturas, equilíbrios e compactação.

O Milan de Fábio Capello na final do mundial de clubes de 1993 contra o São Paulo. Duas linhas de quatro, marcação por zona. O líbero estava perdendo espaço

Já nos dias atuais a preparação mudou, estamos na era da tomada de decisão, pois o jogo está muito estudado e dinâmico, portanto passou a ser jogado mais com o cérebro do que com o corpo, metodologias sistêmicas dividem espaços com a analítica (metodologia que fragmenta o treino em físico, técnico e tático. É como os treinadores já citados preparavam suas equipes, pois antigamente só se conhecia esta metodologia de treino), justamente para que comportamentos sejam criados nos jogadores. Treinadores italianos como Ancelotti adaptaram suas metodologias durante a carreira e hoje trabalham muito pouco o analítico. Porém o cuidado excessivo com a defesa ainda é mantido por grande parte dos italianos, como Claudio Ranieri, Gian Piero Gasperini, Massimiliano Allegri, Antônio Conte e etc. Isso não quer dizer que não se preocupem em atacar, porém é cultural na Itália a formação de uma equipe começando pela defesa. Mas sabemos que a influência do jogo de posição no mundo está alterando aos poucos até mesmo o que se vê na Itália, basta olhar para Maurizio Sarri e Roberto De Zerbi. Será o fim do Catenaccio, já que seus elementos foram desaparecendo com o tempo? Talvez, mas como já foi dito, começar a armar uma equipe pela defesa é algo ainda muito prioritário na Itália e mesmo que esta lógica desapareça creio que levará um tempo para acontecer.

A Juventus, melhor time da Itália, preserva resquícios do Catenaccio, com uma defesa sempre sólida

Atualmente a mentalidade do Catenaccio segue embutida nas equipes da Itália, pois a filosofia de defender-se acima de tudo está na cultura de jogo do país, tanto que é muito difícil vermos uma equipe Italiana que sofra defensivamente por um longo período de tempo, mas o líbero, a marcação individual com perseguições longas e a mentalidade fragmentada na preparação dos atletas quase não é mais vista, pois da década de 60 para hoje o futebol mudou muito, e essa cultura de jogo foi sofrendo adaptações. Há quem diga que o Catenaccio é apenas o estilo que Herrera implantou na Internazionale, porém penso que seja muito mais que isso, uma cultura que se disseminou e que até hoje faz parte do jogo na terra da bota.

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