Hoje no nosso Blog é dia de apresentar uma Convidada Especial, se trata de Júlia Barreira, que atualmente é Doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e docente nos cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física e Esporte. Desenvolve estudos sobre Futebol de Mulheres com foco na Gestão do Esporte. Júlia nos contará sobre a temática das Mulheres, Liderança e Futebol, comentando sobre quais são os principais fatores que, na opinião da nossa convidada, dificultam o acesso das Mulheres para a ocupação de Cargos de Liderança e, por consequência, à uma figura de maior destaque no cenário do Futebol Brasileiro.

Então vamos ao texto, boa leitura a todos!

Nesse momento histórico em que uma Mulher assume pela primeira vez a vice-presidência dos Estados Unidos, podemos nos questionar sobre a presença de Mulheres em Cargos de Liderança na sociedade e no esporte. O Futebol é uma das modalidades que mais resistiu (e ainda resiste) à entrada das Mulheres como praticantes, gestoras e profissionais da comissão técnica.

Sabemos que atualmente os homens ocupam 95% dos cargos de Gestão dos clubes brasileiros, 92% dos cargos das federações e mais de 80% dos cargos de comissão técnica. Se no passado as Mulheres lutavam para superar os impedimentos sociais e legais à prática do Futebol no Brasil, a luta atual é caracterizada pelo rompimento das barreiras que dificultam a ocupação dos Cargos de Liderança no Esporte.

A predominância dos homens cisgêneros e heterossexuais nos cargos de Gestão das Organizações Esportivas garantiu que as ações para o desenvolvimento do Futebol também fossem direcionadas a esse público.  Os recursos destinados aos praticantes possibilitaram a maior entrada, manutenção e formação de jogadores na modalidade e a consolidação do Futebol praticado por homens ao redor do mundo.

Por outro lado, as federações esportivas se distanciaram e, muitas vezes, Limitaram o Acesso de Meninas e Mulheres no Esporte. Ainda assim, a exclusão e a invisibilidade por parte dessas Organizações Esportivas não foram suficientes para impedir que Mulheres se organizassem em campos de várzea e que desafiassem a hegemonia masculina na modalidade.

Esses cenários revelam diferentes processos de desenvolvimento esportivo. Se o desenvolvimento do Futebol de homens é caracterizado por ações vinda de organizações poderosas de cima para baixo, o crescimento da prática das Mulheres só foi possível pela Insistência das Praticantes que incomodaram os agentes do topo da Estrutura Esportiva. O incômodo foi tanto que os homens passaram a organizar a prática para as Mulheres para acalmar esse descontentamento e, ao mesmo tempo, garantir o controle sobre os recursos e a visibilidade da modalidade.

Manter os Cargos de Liderança ocupados por homens, assegura que as tomadas de decisão também sejam realizadas em prol dos seus interesses. A presença de Mulheres em cargos de Visibilidade e Poder apresenta uma possibilidade de mudança e gera medo naqueles que querem manter a Estrutura do Esporte.

Se no passado as praticantes eram uma ameaça ao Futebol, as Líderes de hoje representam o novo perigo. E, para se protegerem da nova ameaça, uma vez que não é mais possível utilizar os discursos médicos para distanciar as praticantes, os gestores se agarram na suposta falta de qualificação para não contratarem as Mulheres para Cargos de Liderança. Esse argumento nos leva a questionar: Será que todos os homens contratados para atuarem na modalidade são mesmo qualificados? Ou a qualificação para trabalhar no Futebol também é uma questão de gênero?

O constante questionamento sobre suas competências e capacidade de atuação profissional, levam as Gestoras e Treinadoras a se Qualificarem o dobro do que os homens para ocuparem as mesmas posições de Liderança no Esporte. As Mulheres se submetem a um extensivo processo de formação para terem uma oportunidade e continuarem se provando em um ambiente dominado por homens. Diversas profissionais buscam no ensino não formal a Qualificação para entrarem e se manterem no Futebol.

Curiosamente, esses cursos são majoritariamente ministrados por homens e direcionados aos seus pares, fomentando novamente o distanciamento das Mulheres. Sendo assim, temos um Ciclo de Exclusão Consolidado: que não contrata Mulheres por falta de Qualificação e que não Qualifica Mulheres justamente para não ocuparem esses espaços.  

Estudos recentes mostram que as Treinadoras de Futebol se sentem desconfortáveis em cursos de formação promovidos por federações esportivas e ministrados por homens. As Piadas, os Antigos Jargões e a Desvalorização Profissional são alguns dos motivos citados pelas Treinadoras. Para uma Qualificação efetiva é necessário promover um ambiente seguro para que as participantes possam Refletir sobre a Estrutura do Futebol, se expressar, se desenvolver e criar conexões entre as demais profissionais. As estratégias de Mentoria e o Contato com Outras Mulheres que admiram e que atuam em Cargos de Liderança, também são apontadas como Estratégias Eficazes no processo de desenvolvimento dessas profissionais.

O desenvolvimento do Futebol pode ser catalisado se promovido em conjunto (e não em confronto) com as Mulheres. A participação de Mulheres em Cargos de Liderança é fundamental para promover a transformação necessária do Futebol e a Democratização do acesso à modalidade. Da mesma forma, a presença das Mulheres em elevados cargos políticos e econômicos é um importante passo para promover a equidade de gênero na sociedade. Mas existe uma pergunta que ainda precisa ser respondida: Quanto tempo mais para vermos o mesmo acontecer no Futebol?

E aí você gostou desse assunto? Concorda com a ideia da nossa convidada de que o desenvolvimento do Futebol pode ser catalisado se promovido em conjunto (e não em confronto) com as Mulheres? Deixe aqui o seu comentário e não esqueça de fazer a sua inscrição no nosso curso de Gestão no Futebol, entre no link https://gestao.futebolinterativo.com/  e faça a sua inscrição hoje mesmo!

Júlia Barreira é Doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e docente nos cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física e Esporte. Desenvolve estudos sobre Futebol de Mulheres com foco na Gestão do Esporte.