Conheça um pouco mais sobre os faturamentos dos clubes brasileiros em relação aos estrangeiros, no que tange aos direitos de transmissão de TV

A indústria do futebol gerou um movimento R$ 49,5 bilhões, de forma direta e indireta, o que representou 0,79% do PIB nacional em 2018, segundo estudo da CBF realizado naquele ano. Entretanto, as receitas dos clubes de série A, em comparação com os clubes de outros países com base no ano de 2019, não estão tão boas nessa relação Receita/PIB, ficando apenas 0,06%, somando US$ 1,1 bi. Já os países Europeus tem receitas bem melhores, como a Inglaterra, somando US$ 6,5 bi, de um PIB nacional de 2.743 bi, ou seja, 0,24%. Seguido pela Espanha que soma US$ 3,5 bi, e 0,25% da relação Receita/PIB.

O aspecto que mais contribui para essa diferença financeira está nos valores das vendas de direitos de transmissão de TV dos campeonatos. Nos modelos Europeus, as negociações são centralizadas, de forma que os pacotes são vendidos buscando-se a máxima eficiência de divulgação do produto. No Brasil, o modelo vigente é o da negociação individual, entre clube e rede de TV, mas com o agravante que os clubes precisam assinar com a mesma rede de distribuição de sinal. Logo, é coletivo na divulgação mas individual na negociação.

 Mudanças recentes nos direitos de transmissão

Recentemente foi publicada a Medida Provisória 984, de 18 de junho de 2020, modificando os dispositivos da Lei Pelé (Lei n. 9.615/1998), que estabelece o direito de transmissão de partidas seja do clube mandante da partida. Assim, essa medida permite que os próprios clubes possam gerir os direitos de transmissão.

A MP também desclassifica e elimina os sindicatos. Até então, as entidades representativas dos atletas intermediavam a distribuição dos valores do direito de arena. Agora é o próprio clube quem deverá fazer diretamente os pagamentos.

 Outro ponto de mudança na MP é a diminuição do tempo de contrato de trabalho de 90 dias para 30 dias. Essa mudança talvez não tenham grandes impactos para clubes de séries A e B, pois esses têm calendários definidos até o final do ano.

 Brigas judiciais e o torcedor

Essa nova redação tem gerados sucessivos casos de solicitações a justiça desportiva. O último caso foi pelo Flamengo, na tentativa de transmitir o jogo contra o Fluminense pela Final da Taça Rio do Campeonato Carioca 2020. Anteriormente, a Federação de Futebol do Rio havia conseguido uma liminar que exigia que a rede Globo de TV transmitisse a partida entre Fluminense x Botafogo, pela semifinal do mesmo campeonato, pois a Rede Globo tinha emitido nota informando que não iria mais transmitir jogos do campeonato Carioca. A alegação era que o contrato havia sido quebrado, quando na ocasião o Flamengo, já no uso da nova Medida Provisória 984, transmitiu seu jogo contra o Volta Redonda, pelo seu canal FlaTV. Lembrando que o Flamengo não havia assinado contrato de transmissão com a Rede Globo por divergências nas negociações.

A partida entre Flu e Fla, transmitida pelo canal do YouTube FluTV, ultrapassou a marca de 3.7 milhões de visualizações simultâneas, o que a tornou a maior live da história do Brasil em número de views. Antes do início do evento, a FluTV já havia adicionado mais de 100 mil novos inscritos.

Novas adesões ao modelo de autogestão

Acreditando que esse assunto ainda vai levar muito tempo para entrar no eixo, vemos clubes que já se posicionaram, a exemplo do clube empresa Red Bull, que não aceitou a proposta de R$ 30 milhões feita pela Rede Globo. O clube admite até a possibilidade de exibir seus jogos do Campeonato Brasileiro em canal próprio. A ideia da direção do clube é turbinar seu canal no YouTube, que já conta com mais de 9 milhões de inscritos.

A Red Bull transmite eventos mundiais em seu canal mundial e faria o mesmo com os jogos do clube paulista no Brasileirão. Segundo Marquinho Chedid, presidente do Red Bull Bragantino, o valor oferecido é baixo para 38 jogos, mesmo porque envolve ainda transmissões para o exterior. O Bragantino vai montar sua própria estrutura, nas plataformas da Red Bull e transmitir os jogos no Brasileirão.

 No ano 2019, existiram polêmicas nas negociações de Palmeiras e Athletico-PR com a Rede Globo de Televisão, tendo inclusive alguns jogos sem transmissão em canais com imagem.

 Mas se por um lado essa ampla gama de possibilidades que aparece agora como um caminho possível para ampliação das receitas, para os maiores clubes do Brasil em faturamento e tamanho de torcida – sobretudo para aqueles clubes que se sentiam prejudicados com a partilha do modelo vigente – para os de menor investimento essa nova MP não deve ser tão benéfica assim.

Se a MP 984 for aprovada pelo Congresso e não ganhar uma infinidade de emendas, provavelmente será decepcionante para os clubes ditos “pequenos” e “médios” – e até mesmo para alguns “grandes” com menos fôlego financeiro e/ou torcidas menores. Essas agremiações poderão ter encalhado aquele que seria seu principal produto, o carro-chefe de suas receitas. Ou ainda, num cenário mais otimista, receber por esse produto menos do que recebe no modelo vigente, pago pela atual detentora dos direitos de transmissão.

Os clubes terão que entender de processo para um melhor gerenciamento. Vão precisar de uma nova mentalidade, saber que os novos modelos demandam continuidade e também sustentabilidade.

Desta forma, reforçando o que já pontuamos no início do artigo, caberá aos clubes uma melhor gestão de seus ativos, e meios de comunicação, para que não venham a perder essa fatia de renda tão importante para seus cofres. Então, é imprescindível que os clubes invistam bem na geração de conteúdos institucionais, na contratação de mão de obra especializada e qualificada, e no fortalecimento de suas áreas de Marketing, Comunicação e Vendas.

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