Todo país tem uma cultura de jogo, que é construída a partir de aspectos culturais, históricos, geográficos locais, um exemplo disso foi o texto que escrevi sobre o catenaccio, que ainda permanece na essência das equipes italianas, você pode ler clicando aqui. Mas quando falamos de Brasil, como é a nossa cultura de jogo? Quais as influências que nossos jogadores recebem para a prática do jogo? Vou responder essas e outras questões a seguir.

Primeiramente temos que considerar que o futebol é o esporte primário em nosso país, toda criança sofre alguma influência de familiares para gostar deste esporte.  Somos um país subdesenvolvido, onde a maioria da população sempre foi de classe média para baixo, nunca houve condições de construir campos de futebol em boas condições onde as pessoas viviam, então as crianças se reuniam em um terreno qualquer, na plantação de milho, na própria rua... qualquer lugar que fosse possível improvisar um campo e colocar duas traves em cada lado, mesmo que improvisadas, para jogar futebol. Isso, juntamente com outras brincadeiras de rua como polícia e ladrão, pega-pega e etc. faziam com que adquirissem um repertório motor muito vantajoso.

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O futebol e as outras brincadeiras de rua foram elementos fundamentais para a formação de craques.

Por volta dos 13 anos as crianças que tinham o sonho de jogar futebol como profissão iam aos clubes para fazer as avaliações, cujo nome popular é “peneira”. Ao ser aprovado geralmente esses miúdos eram treinados dentro de uma metodologia analítica, onde se treinava muito os fundamentos técnicos. Mesmo o treino sendo considerado repetitivo e chato para a maioria, pois além disso havia corridas intermináveis e jogos em campos grandes para a categoria, havia um desenvolvimento técnico importante.

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Já na base o enfoque era aproveitar o repertório motor para aperfeiçoar a técnica individual do jogador.

Quando chegava ao profissional esses miúdos não tinham medo de arriscar situações ousadas como um drible para desequilibrar a defesa rival, pois eram acostumados desde muitos jovens a isso. O rico repertório motor da rua, somado a qualidade técnica adquirida nas categorias de base faziam com que nossos jogadores criassem soluções muito fáceis para os problemas que o jogo propunha, eram dribles variados como recurso, assim como passes diversos que colocavam os companheiros na cara do gol, e por aí vai... tínhamos jogadores ousados e técnicos. Os europeus vinham buscar este tipo de jogador por aqui, pois lá nunca houve brincadeiras e futebol de rua, então eles não tinham jogadores com tanto repertório motor, que fossem ousados e tão capazes de desequilibrar como os nossos, então tentavam compensar isso com preparo físico, organização tática.

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O repertório motor, juntamente com a ousadia que, adquiridos em ambiente de rua, somava-se ao aperfeiçoamento técnico na base e tornavam o jogador brasileiro ousado e eficaz.

Taticamente o trabalho dos treinadores era muito facilitado, o maior desafio era gerir o grupo de atletas pois sempre havia jogadores que decidiam o jogo, não havia tanto trabalho tático coletivo, bastava fazer a bola chegar nos jogadores de frente, eles resolviam o jogo com um drible, um passe decisivo que colocava um companheiro na cara do gol. Defensivamente os encaixes, ou as marcações individuais resolviam, pois bastava ter o melhor do time nesta função para anular o craque adversário, se houvesse falha defensiva sempre haveria um culpado, essa é uma outra peculiaridade que se tem em nossa cultura, sempre precisamos achar um culpado, por isso que é cultural a marcação com enfoque no homem e não no espaço, o próprio Renato Portaluppi ao chegar no Grêmio mudou a maneira do time marcar (era por zona com o antecessor, Roger Machado) com essa justificativa “Se meu time levar gol, eu tenho a quem culpar.” Os treinamentos eram muito mais voltados para a manutenção da forma física do elenco do que para a construção de um jogar, o treinador cuidava minimamente da parte tática, apenas fazia-se um coletivo jogado com as dimensões totais do campo, o time ia formando uma identidade durante a sequência de jogos oficiais, por isso não era comum ouvirmos expressões do tipo “O melhor treino é o jogo”.

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A seleção de 2002 representa exatamente a cultura do futebol brasileiro: Jogadores de frente que resolviam jogos, marcações com enfoque no homem e não no espaço e um técnico que era um excelente gestor de grupos.

As coisas mudaram. As brincadeiras de rua acabaram, em consequência o jogo de futebol nesse ambiente também, pois a violência nas cidades foi aumentando devido a urbanização intensa, além de estarmos vivendo a época do mundo digital, videogames e computadores estão cada vez mais disponíveis a um número cada vez maior de pessoas, ficar em casa se tornou mais cômodo. O que resultou em jogadores chegando aos clubes sem o repertório motor de antes, e sem a ousadia de arriscar uma jogada mais atrevida, pois há a cobrança por resultados em campo em detrimento da formação, por isso é mais cômodo fazer o simples e não correr o risco de ser culpado por uma derrota do que arriscar.

O jogo também evoluiu, a globalização tornou-o mais estudado e dinâmico, portanto a individualidade já não tem mais a capacidade de resolver jogos como antes, é preciso um maior senso coletivo para gerar desequilíbrios ofensivos e defensivos nos rivais, isso explica porque grande parte das pessoas que estão no futebol se inspira no jogo de posição. Além de tudo o número de partidas por ano aumentou, juntamente com a intensidade do jogo, portanto não há mais tempo para preocupação excessiva com o físico e a técnica individuais dos jogadores de maneira isolada durante as sessões de treino, é necessário construir um jogar o quanto antes para competir em alto nível, por isso que metodologias de treino sistêmicas como a periodização tática estão cada vez mais idealizadas entre os profissionais do esporte.

A qualidade do jogador que produzimos hoje não é a mesma de antes. Ainda exportamos muito, é verdade, porém reparem que estamos perdendo cada vez mais cedo nossos jogadores para os europeus, pois a estratégia deles de captação mudou, ao invés de desembolsar altas cifras por craques consolidados em cenário nacional e que teriam que adaptar-se a um outro cenário, compra-se jogadores promissores, com um grande futuro pela frente quando ainda são menores de idade, muitas vezes, para terminar de forma-los já fora do cenário nacional, pois os compradores sabem que o futebol brasileiro ainda não acompanhou a evolução do jogo e o jogador ficando por aqui tem mais chances de ter seu potencial diminuído.

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Vinícius Jr e Rodrygo são exemplos de jogadores que os europeus buscam atualmente no Brasil.

Qual a solução? Diria que precisamos ainda estimular de alguma forma o futebol de rua, alguns clubes pedem para seus jogadores de categorias de base jogarem por conta própria algumas vezes por semana para irem adquirindo repertório motor, outra solução seria oferecer cenários que imitem as brincadeiras que se faziam antigamente dentro dos treinos. Quem administra a base precisa entender que não se deve priorizar a conquista de títulos e sim a formação do jogador, o ideal seria criar cenários para os treinadores destas categorias terem vontade de continuar nelas, ao invés de chegar a categoria profissional, com um salário adequado e metas de jogadores que devem subir de categoria em um determinado intervalo de tempo. A CBF deve agir, dando formação adequada e com um preço acessível a todos que lidam com o futebol e deve ser a pioneira para a idealização do que foi falado a pouco.

Por: Gabriel Mieli Fortuce

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