A profissionalização contribuiu para que o Estado e as elites fiscalizassem a vida do jogador “malandro”, do trabalhador que fugia as normas da fábrica/empresas. 

 

Leônidas da Silva era um desses jogadores. O “diamante negro” era um fenômeno dentro das quatro linhas, as jogadas “mágicas” de Leônidas transformaram o atleta em um mito do futebol. Pobre, negro e ex operário, o jogador saiu das condições adversas para se tornar conhecido pelo mundo. 

 

Do outro lado, tínhamos um jogador “exemplo” para os profissionais. Domingos da Guia, zagueiro de seleção brasileira, que foi um ex operário, mas que se tornou jogador graças a grande habilidade com os pés. Era um defensor diferenciado, pois não possuía características agressivas e sempre ao “roubar” a bola, tinha uma elegância invejável. Seguia os horários propostos pelos clubes, não faltava seus compromissos, não era visto em festas ou qualquer outro evento social. Domingos era um homem caseiro, com família formada e considerado jogador “exemplo”, por não “driblar” as regras impostas.

 

A profissionalização do futebol, seguia os passos da profissionalização de qualquer trabalhador, ou seja, no Brasil, o trabalhador era condicionado a disciplina, a exploração e a humilhação.  Nesse sentido, devemos considerar as experiências dos atletas de futebol, pois o seu cotidiano, seus valores culturais, suas tradições, estão além do ambiente de trabalho. 

           

Finalmente, o futebol ainda é pouco pesquisado pela academia historiográfica. Ainda há a ideia de que futebol não se discute ou não é visto como objeto de estudo. Sabemos que tal afirmativa é equivocada, pois, como mostramos anteriormente, o futebol é um reflexo da sociedade. 

 

Os problemas sociais, a luta por direitos políticos e trabalhistas, a exploração do trabalhador, fazem parte do mundo futebolístico, por isso, o futebol é tão querido pelos brasileiros, afinal, uma vitória não é simplesmente “três pontos”, mas sim, toda uma simbologia que envolve aquela conquista.

 

Nesse debate, futebol, política e sociedade se misturam, seus atores comunicam-se constantemente, lutando pelos seus interesses e pelos seus grupos, por isso, esse esporte é considerado uma metáfora da sociedade. As improvisações da vida, são vistas como as de um atacante que quebra as normas táticas durante um jogo, e logo em seguida marca um gol, provocando um sistema político (da época )duro com o povo. 


No nosso viés, pensar as experiências dos jogadores profissionais é problematizar o fazer-se de um novo grupo de trabalhadores na cidade, além de refletir a própria vida humana destes indivíduos que eram marginalizados pela sociedade. Por isso, através da experiência os homens se tornam sujeitos, experimentam situações e relações produtivas como necessidades e interesses, como antagonismos. Eles tratam essa experiência em sua consciência e cultura e não apenas a introjetam. Ela não tem um carácter acumulativo. Ela é fundamentalmente qualitativa. (THOMPSON, 1981 apud GHON, 1997, p.204).

       

Thompson, na A formação da classe operária inglesa, já tinha apontado para o lazer dos trabalhadores, onde entre as bebedeiras e festividades estava também o futebol. Expor a experiência desses homens e mulheres comuns, apresenta um sentido mais vivo para a história. 
         

Foi assim com Leônidas, Garrincha, Maradona, Eric Cantona, Drogba e tantos outros jogadores espalhados pelo mundo que lutaram e lutam pelo fim de regimes autoritários e por melhores condições de vida para os pobres, trabalhadores, mulheres, enfim, os marginalizados pela sociedade.

 

Por Marco Neto  @marco.antonio.batista.neto 
Historiador e Mestrando UFCG